Segundo D’ávila (1983), atualmente, no sistema capitalista, “nem o artesão nem o industrial trabalham, em primeira instância, em funções de fatores sociais ou culturais, mas fundamentalmente em função do lucro e da rentabilidade, sem o que eles não poderão manter regularidade nas suas produções” (D’ÁVILA, 1983).

Países como o Brasil foram colonizados e moldados para ser mercado da indústria internacional, que cria necessidades para introduzir seus produtos e obter lucros. Isso acarretou uma perda das referências culturais próprias, para dar lugar a uma assimilação de outra cultura fora da nossa realidade. Os produtos industrializados em grande parte de origem estrangeira tomaram conta de nosso país, participando significativamente de nossos hábitos de compra. Tais produtos trazem em si, além do seu aspecto físico uma identidade própria que promove uma ideologia favorável a um modelo de cultura atual que prioriza o consumo desenfreado, impulsivo e indiscriminado dos mais variados artigos. Esses produtos que mudam constantemente o seu apelo visual e estético concorrem deslealmente com os produtos artesanais.

A industrialização tem utilizado abusivamente os recursos naturais e tecnológicos, em uma demonstração de desrespeito ao meio ambiente. Atualmente vivenciamos uma problemática sem precedentes no que diz respeito à escassez e ao mau uso dos recursos naturais e as empresas parecem desprezar essa realidade. Nesse contexto podemos medir a importância do artesanato como uma valorização do trabalho e da criatividade humana obedecendo aos limites da natureza. Por isso o artesanato vem ganhando mais valor em nossa época, talvez por uma necessidade de volta às origens, após tamanha explosão de consumo de produtos industrializados. Nesse respeito escreveu o já citado autor: “A importância dos artesanatos na sociedade contemporânea tem seu maior significado e valor pelas referências culturais e humanas de seus estilos” (D’ÁVILA, 1983).

A indústria moderna está presa a estruturas rígidas de produção e concentra-se em uma produção massificada que mecaniza todos os processos, apagando os vestígios do trabalho humano. Por outro lado, o artesão tem a liberdade de dar qualidade e beleza aos produtos que confecciona de forma mais artística, independente de uma tecnologia industrial, ao contrário, dispondo muito mais de sua habilidade manual e criativa.

Falando da função do artesão na sociedade contemporânea, D’ávila (1983) propõe a ‘desindustrialização’ de alguns setores industriais para abrir oportunidades de emprego na área artesanal. Segundo o mesmo autor, alguns produtos como sapatos, roupas, alimentos, móveis, etc., podem ser produzidos de maneira artesanal, o que diminuiria a importação de insumos, bens de produção e energia. Nesse sentido o artesanato deve permanecer de maneira estratégica, paralelo com outros sistemas de produção.

Nos países em desenvolvimento como o Brasil, a produção informal além de atender ao consumo local promove a manifestação da cultura. O artesanato significa, neste caso, uma solução sócio-econômica e educacional. Sendo as faculdades mentais e as habilidades manuais inerentes ao homem e sendo o artesanato diretamente ligado à natureza criativa deste o artesanato não “desaparecerá com o desenvolvimento enquanto o homem tiver cérebro e mão” (D’ÁVILA, 1983).

Crescem o mercado global e as disputas comerciais, elevando-se a competitividade. Para que a prática do artesanato sobreviva como atividade economicamente lucrativa, a qualidade do produto artesanal deve ser otimizada para acompanhar as mudanças cada vez mais rápidas de nossa sociedade.

O artesanato chegou até os nossos dias quase que integralmente preservado em seu aspecto tradicional. Atualmente este se depara com alguns problemas na sociedade contemporânea. Um desses problemas está relacionado com a inconstância e baixo volume de produção, características comuns no artesanato, que são incompatíveis com o mercado capitalista, que exige uma produção regular; Some-se a isto a ausência de um padrão de qualidade pré-estabelecido para a produção e a incongruência entre os preços e a qualidade, preços muitas vezes fixados sem critérios e não raro bastante elevado pelos atravessadores; além disso, há a falta de conhecimento sobre as demandas de mercado e público-alvo, o que favorece os produtos industrializados que tem mais diversidade, inovação e seguem um planejamento de produção. Nesse contexto, se torna muito difícil para o artesanato se sobrepor aos demais produtos existentes no mercado.

Diante dos problemas enfrentados pelos artesãos, existe uma necessidade de promover uma revitalização, para que o produto artesanal se torne mais competitivo no mercado. Isso vem sendo feito através de um projeto de design aplicado ao artesanato, para que este possa atender aos padrões estéticos atuais, visto que o design tem se popularizado nos últimos anos, se transformando em sinônimo de modernidade. O design levou muito tempo para alcançar uma maior aproximação com a indústria, o que só ocorreu nos últimos dez anos. A liberação das importações no Brasil tornou o mercado mais favorável ao investimento em projeto. Até os anos 80, o design se restringia a alguns segmentos, ligados a nichos de mercado elitizados. Atualmente o design se espalhou por outros setores de produção e outras faixas de consumo. Está havendo um grande aumento de sua utilização associada a seus princípios no campo social, que apontam para um compromisso com a sociedade, honestidade para com o consumidor e compromisso com a preservação ambiental. Design pode ser definido como “A melhoria dos aspectos funcionais, ergonômicos e visuais dos produtos, de modo a atender às necessidades do consumidor, melhorando o conforto, a segurança e a satisfação dos usuários” (CNI, 1998).

Dessa forma, podemos ver como principal característica do design o planejamento do que será produzido, posicionando o produto no mercado para atender às demandas existentes ou criar novas demandas, reduzindo os custos. Dessa forma o design agrega valores ao produto, valores estes que são oferecidos aos consumidores, favorecendo o processo de troca. O design deve favorecer o processo de desenvolvimento de produto desde a criação, passando pelo projeto, execução e finalmente pela apresentação através dos canais de distribuição. Levando-se em conta as características tradicionais do artesanato, pode parecer contraditório aliá-lo ao design, num processo de inovação tecnológica, dentro de uma proposta conceitual. Mas é preciso ressaltar que a cultura não é estática e não se pode esperar que o artesanato se limite a processos imutáveis, imunes a qualquer influência externa. Ora, desde a sua origem o artesanato vem sofrendo influências que foram responsáveis por algumas modificações no decorrer do tempo, sejam nas cores, nas formas ou na temática, e ainda assim não perdeu a sua essência original. Em contrapartida, nessa época de intensa globalização, o design volta-se a uma forte busca de identidade cultural, com ânsia de particularidade e necessidade de volta às raízes.

Crocco (2000) faz uma interessante colocação a respeito do paradoxo aparentemente existente entre design e artesanato: “Antes antagônica, hoje essa relação pode ser subvertida, na medida em que se estabelece uma convergência produtiva entre um e outro, entre o domínio do fazer artesanal e o conceito do desenho”. O design pode influenciar o desenvolvimento de produtos, considerando que a produção artesanal tem um ritmo e um volume bem particular. Devem ser resgatados as técnicas e os materiais, conservando os produtos originais. As necessidades e demandas do mercado devem ser consideradas no que diz respeito à mudança de alguns aspectos do produto, desde que isso promova a melhoria da qualidade.

Apesar de todos os problemas, o artesanato continua sendo produzido no Ceará com grande criatividade e têm sido feitos alguns esforços para a melhoria da qualidade. Este artesanato é fabricado em sua grande parte, conservando suas características originais de produção. Depois de passar por um período em baixa devido à grande procura por produtos industrializados, as tendências da moda atual vêm valorizando cada vez mais as peças de vestuário e os acessórios feitos artesanalmente.

A moda exige atualização constante dos produtos segundo as tendências impostas pelo mercado, que são rapidamente absorvidas pelo consumidor. Para unir artesanato e moda é preciso ter em mente que a revitalização do processo produtivo não significa interferir no aspecto tradicional nem descaracterizar as técnicas artesanais. Além disso, a simples utilização das técnicas artesanais em peças industrializadas não caracteriza essa união. Ao contrário, o artesanato deve ser usado como uma rica fonte de inspiração, não só em seu aspecto físico, mas principalmente em seu aspecto lúdico e mágico.

ALEGRE, Maria Sylvia Porto. Arte e ofício de artesão: história e trajetórias de um meio de sobrevivência. São Paulo: Tese de doutoramento, F.F.L.C.H. Universidade de São Paulo,1988.

CROCCO, H. Artesanato e design: história de uma convergência.Revista Arc Design. nº 13, 2000.

CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA – CNI. A importância do design para a sua empresa. Brasília: COMPI, SENAI/DR – RJ, CNI, 1998.

D’ÁVILA, José Silveira. O artesanato tradicional e seu papel na sociedade contemporânea. Rio de Janeiro: Funarte / Instituto Nacional do Folclore, 1983.

LAUER, Mirko. Crítica do artesanato: plástica e sociedade nos Andes peruanos. São Paulo: Nobel, 1983.

<a rel=”license” href=”http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.5/br/”><img alt=”Creative Commons License” style=”border-width:0″ src=”http://i.creativecommons.org/l/by-nc-nd/2.5/br/88×31.png” /></a>

<span xmlns:dc=”http://purl.org/dc/elements/1.1/” href=”http://purl.org/dc/dcmitype/Text” property=”dc:title” rel=”dc:type”>ARTIGO – Artesanato e Design</span> by <a xmlns:cc=”http://creativecommons.org/ns#” href=”https://tanianeiva.com.br/” property=”cc:attributionName” rel=”cc:attributionURL”>T&#226;nia Neiva Dias Silva</a> is licensed under a <a rel=”license” href=”http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.5/br/”>Creative Commons Atribui&#231;&#227;o-Uso N&#227;o-Comercial-Vedada a Cria&#231;&#227;o de Obras Derivadas 2.5 Brasil License</a>.

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Categorias: ARTIGOS

Tânia Neiva

Graduada em Estilismo e Moda da UFC e especialista em Metodologia do Ensino de Artes pela Universidade Estadual do Ceará. Atua na área de planejamento e criação de coleções de moda. Lecionou nos cursos de Design de Moda da UFC Centro Universitário Estácio do Ceará.

6 comentários

expekt · 10 de maio de 2010 às 19:25

It’s always pleasure to read your content, will back here soon

    Tânia Neiva · 12 de maio de 2010 às 16:50

    Obrigada. Volte sempre.

karla · 22 de setembro de 2010 às 20:42

qual foi a data que foi postado esse artigo gostei e vou usa-ló preciso da data para poder referenciar

Cleo do Vale · 3 de fevereiro de 2011 às 00:56

Oi Tânia, tudo bom?!

Pesquisando referencias sobre artesanato e design vim parar no seu blog.

Ficarei muito grata se puder de alguma maneira me disponibilizar as seguintes referencias:

ALEGRE, Maria Sylvia Porto. Arte e ofício de artesão: história e trajetórias de um meio de sobrevivência. São Paulo: Tese de doutoramento, F.F.L.C.H. Universidade de São Paulo,1988.

CROCCO, H. Artesanato e design: história de uma convergência.Revista Arc Design. nº 13, 2000.

D’ÁVILA, José Silveira. O artesanato tradicional e seu papel na sociedade contemporânea. Rio de Janeiro: Funarte / Instituto Nacional do Folclore, 1983.

Por favor, me envie um email ([email protected]) para que agente possa combinar como “transitar” com esse material, ok?

Um abraço.

Maibe · 29 de abril de 2012 às 14:51

Oi Tania, estou pesquisando sobre o artesanato brasileiro pra minha tese final de mestrado e nao estou conseguindo acessar o material que vc usou como referencia, sera que vc tem como disponibiliza-lo pra mim? Muito obrigada pelo seu artigo e pela sua ajuda! Abraços, Maibe
[email protected]

    Tânia Neiva · 30 de abril de 2012 às 09:42

    Olá,
    As referência bibliográficas que usei foram da biblioteca da Universidade Federal do Ceará-UFC. Não tenho nenhum desses livros. Acho que uma boa opção é procurar em bibliotecas universitárias.
    De qualquer forma, vou dar uma pesquisada e o que eu conseguir te envio.

    Boa sorte!

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