Por Sara Oliveira
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Há quem diga que estar bem vestido é essencial. Para outros, pagar pouco é o que interessa. No universo quase ditatorial e movediço da moda, os brechós não são mais apenas lugares que transformam a antiguidade em algo “fashion”, eles têm virado escolha de muitas fortalezenses. É a oportunidade para, além de gastar pouco, trocar roupas que estão penduradas no armário há tempos e ainda reunir-se com as amigas, colhendo opiniões e formando novos “looks”.

“Prezar pelo desapego material é o principal objetivo, além da troca de roupa ser a temática perfeita para juntar as amigas, rende muita conversa e bons momentos. Só mulher sabe o quanto é ruim ter uma peça no guarda-roupa ainda com a etiqueta de compra e não conseguir usá-la, por vários motivos. Isso é exatamente o que move o Brechó Nem Luxo, Nem lixo”, descreveu a organizadora do evento comercial, Indira Leite Siqueira.

Indira explicou que tudo começou como uma tentativa de trocar roupas e angariar fundos para uma viagem de réveillon. “A gente achava bacana e então fomos fazendo mais vezes e já estamos no quinto mês. Nos encontros [brechós], agora, um amigo que é DJ toca e tem até umas bebidinhas de fim de tarde. Virou um programa muito legal para os domingos”, avaliou. Os brechós Nem Luxo, Nem Lixo acontecem nos primeiros domingos do mês e é divulgado através de redes sociais da internet e cartazes em alguns pontos de Fortaleza.

DIVERSIDADE DE GOSTOS E CLIENTES
O ditado popular “gosto é gosto” pode parecer óbvio, mas quando trata-se de escolha de roupa, tem uma aplicabilidade enorme. Os brechós têm esse sentido de multiplicidade de escolhas e vontades, é democrático e sem preconceitos. “É prazeroso quando vemos as pessoas acharem peças que interessam, independente da opinião dos outros. Uma calça tipo ‘leggin’ dourada ficou por três vezes domingos no brechó, porque a maioria das meninas não gostava. No último, um rapaz adorou e levou para casa”, exemplificou.

Antes restrito apenas a um ciclo de amizades, o brechó organizado por Indira, hoje, recebe a visita de novos clientes, propostos a conhecer o brechó e achar uma nova peça para compor o armário. “Todas às vezes tem mais gente, recebemos sugestões e têm aqueles que até pedem para fazer reserva. A intenção é continuar promovendo o vestuário ecologicamente correto, sem o consumo exacerbado ou inadequado”, afirmou.

VIROU NEGÓCIO
Para Lúcia Maria Alves de Andrade, dona do brechó que leva seu nome, o negócio é a garantia do pagamento de seu aluguel e de todas as suas necessidades. “Onde eu conseguiria emprego para ganhar mais de um salário mínimo, sem ter estudo?”, indagou. A comerciante contou que fazia consertos de roupas e muitas pessoas acabavam esquecendo algumas peças. “Comecei a fazer consignação com alguns clientes e, hoje, aproximadamente 200 pessoas estão cadastradas como fornecedores”, destacou. A porcentagem das vendas é de 50% para fornecedor e o restante para Lúcia, exceto para os vestidos de festa, quando o percentual cai para 30% ao comércio.

Podia-se encontrar “de tudo” na sala da casa de Lúcia, que virou seu comércio. Vestuário para homens, mulheres e crianças, bolsas, sapatos, acessórios e até uma capa de crochê para vassoura. A peça mais barata do lugar custa R$ 0,50 e a mais cara, um vestido trabalhado a mão, é R$ 120,00. “É muito mais vantajoso, e nossa clientela tem aumentado muito. Algumas pessoas vêm todos os meses, e fazem compras para toda a família”, frisou Lúcia.

Até uma das cadeirinhas de crianças para carro, que atualmente tem sido protagonista de polêmicas, estava entre os objetos comercializados. “Já tenho muito jeito tanto com os fornecedores quanto com os clientes. Quando alguém compra uma coisa que não gosta ou que tem defeito, faço questão de trocar ou devolver o dinheiro. A confiança é muito importante”, analisou.

Apesar do sucesso do negócio, é curioso como a religião de Lúcia tem interferência direta em sua administração. Um pequeno letreiro na parede, com um versículo da Bíblia, segundo a comerciante, explica porque o lugar não vende calças. “Já tive muitos problemas com isso, mas a religião faz parte da minha vida, então tenho que agir de acordo. Posso até perder dinheiro, mas o restante das peças compensa”, ressaltou.

QUEM DESFAZ-SE DA PEÇA
E QUEM A RECUPERA

“Antes, com R$ 90, eu comprava uma roupa, hoje compra quase 10”. A diferença financeira é lembrada pela aposentada Maria do Socorro Silveira Costa, que há mais de um ano veste roupas de brechó. Andando pelo comércio de Lúcia, procurando e experimentando peças, Maria do Socorro disse, apontando para as roupas que vestia: “Essa calça foi R$ 8, essa blusa, R$ 5 e a bolsa acho que paguei uns R$3. Tudo foi comprado em brechó. Nunca fui de pagar muito caro em vestuário e hoje que conheço vários brechós, pago menos ainda”, ponderou.

Com um saco cheio de vestidos de festa que não usa mais, Idevalda Castelo Branco chegou ao brechó cheia de esperança de negócios. “Tenho muitos vestidos assim, e são peças que só usamos uma vez, em formaturas ou casamentos. Por isso resolvi trazer para tentar vender, a qualquer preço”. Ela já via outras peças do brechó, para tentar trocar. “Vou fazer das compras, em brechó um hábito. É até egoísmo manter em casa roupas que você não usa mais”, falou.

MUDANÇA DE ATITUDE E CONSCIÊNCIA
Alta escala de produção e baixa qualidade = ecologia prejudicada. Segundo a designer de moda e professora, Tânia Neiva, um dos destaques dos brechós segue uma trilha mais ecológica. “É uma tentativa, mesmo que implícita, de transformar o que é muito e ruim em bom e ecologicamente correto. Uma possibilidade para que as roupas não aumentem o lixo do planeta”, analisou. Ela destacou ainda que em países da Europa e nos Estados Unidos, essa corrente de vestuário com consciência ambiental já existe há algum tempo.

Sobre a inserção desse comportamento no estilo de vestir, a professora avaliou que já houve mudanças. “Em Fortaleza, diferentes de outros lugares, a tendência é de brechós que incentivam a troca das peças. O que antes era sinônimo de doação, hoje é oportunidade de fazer looks”, ressaltou Tânia. A designer falou ainda que os coolhunters, que são “caçadores de coisas legais”, estão de olho nessas tendências, que atraem o público.

Tânia explicou que a moda é caracterizada pelo retorno e a mistura de cores e formas. “Os nossos brechós poderiam incrementar-se mais se as pessoas se interessassem e os popularizassem. Todas nós queremos renovar o guarda-roupa”, ponderou.

Publicado em: http://www.oestadoce.com.br


Tânia Neiva

Graduada em Estilismo e Moda da UFC e especialista em Metodologia do Ensino de Artes pela Universidade Estadual do Ceará. Atua na área de planejamento e criação de coleções de moda. Lecionou nos cursos de Design de Moda da UFC Centro Universitário Estácio do Ceará.

3 comentários

Suellen Barbosa · 2 de fevereiro de 2011 às 01:23

Tania, gostaria de saber se você realmente possui um brechó em fortaleza, e que voce entrasse em contato comigo atraves de email, para me enformar onde fica… se não gostaria de saber se voce sabe de brechos de trocas de roupas em fortaleza.
Obrigado!

    Tânia Neiva · 16 de dezembro de 2011 às 10:04

    Não tenho Brecho. Mas posso postar aqui alguma coisa.

Eliane carneiro · 17 de janeiro de 2012 às 09:50

gOSTO MUITO DE VESTIR ROUPAS DE BRECHO POR QUE NÃO TENHO TEMPO NEM PACIENCIAS PARA COSTUREIRAS E ALEM DE TER MEU GOSTO ME SINTO A VONTADE EM ESCOLHER PRODUTO DE QUALIDADE.

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