Uma das indústrias mais contaminantes do mundo é a do tingimento de têxteis. Na China e em outros países asiáticos essa indústria chega a produzir bilhões de litros de águas residuais contaminadas quimicamente, aproximadamente 40% de todos os produtos químicos de tinturas do mundo. Mais de 30% das tinturarias da China encontram-se na região de Shaoxing, onde durante a operação Green Storm em 2010, foram fechadas várias empresas que derramavam águas residuais ilegalmente. A necessidade de reformar o setor do tingimento têxtil é urgente, sobretudo na China, Bangladesh, Índia, Vietnã e Tailândia. As águas residuais destas fábricas são despejadas, frequentemente sem tratamento, em rios que levam seu conteúdo tóxico ao mar, onde se espalha por todo o planeta. O setor têxtil da China despeja por volta de 2,5 bilhões de litros de águas residuais em seus rios anualmente, segundo um relatório de 2012 do Institute of Public & Environmental Affairs (IPE), uma organização sem fins lucrativos. Entre estes resíduos encontram-se muitos elementos químicos perigosos: tributilestanho (TBT), éter difenílico polibromado (PBDE), ftalatos, perfluoro-octanossulfônico (PFOS) e anilina, que estão proibidos ou rigorosamente regulados em outros países porque são tóxicos, persistentes, bioacumulativos, disruptivos hormonais e podem provocar câncer.

Segundo as estatísticas de 2012 do Ministério de Supervisão chinês, os acidentes por água contaminada nas zonas industriais aumentaram em mais de 1.700 casos anuais, aproximadamente cinco por dia. De acordo com Ma Jun, um líder ecologista chinês e fundador do IPE, que criou o mapa da contaminação da água na China, “Estes derrames tóxicos constituem situações de emergência, mas a liberação de substâncias perigosas é por si só um desastre em andamento. Alguns provedores de marcas como Ralph Lauren, Abercrombie & Fitch, Hugo Boss e Victoria’s Secret são grandes contaminadores, mas estas marcas não querem enfrentar a realidade da contaminação em sua cadeia de fornecimento. Do meu ponto de vista este comportamento é de uma grande irresponsabilidade”, diz Ma Jun.

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Novas tecnologias

Para minimizar esse problema foram criadas novas tecnologias de tingimento sem água, que podem reduzir drasticamente a poluição do setor de tingimento têxtil. Mas esses processos ainda não foram adotados em larga escala pela indústria de tingimento, pois a água tem sido usada para tingir tecidos há séculos e as fábricas têxteis em geral relutam em adotar mudanças. Nos últimos anos, três empresas desenvolveram tecnologias de tingimento sem água, duas norte-americanas, a ColorZen e AirDye e uma holandesa, a DyeCoo, cujo processo é utilizado pela Adidas, uma de suas parceiras. Os processos utilizados por essas três empresas são diferentes, mas os resultados são bastante parecidos. O uso de água é reduzido quase a zero, o que diminui sensivelmente a contaminação e a quantidade de substâncias químicas utilizadas.  Porém, as novas máquinas de tingimento sem água têm uma instalação cara e as tecnologias frequentemente só podem ser usadas em determinados tipos de tecidos, como o poliéster, cuja fabricação já é muito poluente.

 

 

ColorZen

A ColorZen desenvolveu um método que muda a composição molecular das fibras de algodão, que as torna mais receptivas à tintura. Depois do tratamento, o processo de tingimento utiliza 90% menos de água, 95% menos de substâncias químicas, 75% menos de energia e a metade da tintura dos processos convencionais, segundo a empresa fabricante.

Long Lin, Professor da Universidade de Leeds (University of Leeds), um centro de ponta da tecnologia têxtil e da ciência das cores, explica que “No que diz respeito à ColorZen, de fato é uma nova aplicação de uma tecnologia que está funcionando há vinte anos e que ainda não foi aceita pelo setor têxtil”. Nesse processo, o ponto fraco é o custo. Ajoy Sarkar, Professor do Fashion Institute of Technology and Vocational Development in New York City, afirma que o pré-tratamento dos tecidos aumenta os custos, bem como a logística. “A ColorZen tem uma única instalação na China, o que implica que as empresas precisam transportar suas fibras até lá para que sejam tratadas e depois levá-las a uma fiação para que sejam fiadas”, afirmou Sarkar.

AirDye

A AirDye adota um processo diferente. Ao invés de mergulhar as peças no tradicional banho cheio de água e tintura, estas são colocadas em prensas: a pressão e o calor são usados para transferir tinturas especialmente formuladas do papel para o tecido de poliéster. “A molécula da tintura une-se à molécula da fibra, o que lhe dá uma cor mais duradoura”, segundo Rita Kant, Professora Assistente do Instituto de Moda e Tecnologia da Universidade de Punjab (Institute of Fashion Technology at Panjab University), na Índia. Este processo é mais rápido que o tradicional e também consome 95% menos de água e 86% menos de energia, segundo a AirDye.

O ponto fraco dessa tecnologia é que só funciona em tecidos de poliéster. O problema dos tecidos sintéticos é que o processo de fabricação deles é muito poluente. Não adianta ser sustentável só na etapa de tingimento. Os produtos químicos envolvidos na fabricação de tecidos sintéticos têm sido associados a problemas de saúde e degradação do meio-ambiente.

A AirDye tem cinco operações credenciadas (Coco Prints, Eco Printsy e Tex Prints, entre outras) nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia, que também precisam do transporte dos tecidos a longa distância até fábricas que utilizem o processo sem água. A empresa decretou falência no ano passado, mas continua em operação com outros proprietários.

DyeCoo

As máquinas da DyeCoo utilizam dióxido de carbono, que aquece e se comprime até que chega ao estado supercrítico, entre o gás e o líquido. Assim age como solvente e soluto ao mesmo tempo. Como resultado, os pigmentos da cor penetram com muito mais rapidez nas fibras têxteis e não são necessários nem elementos químicos nem sais. Como o tempo de tingimento cai pela metade e o tecido sai seco da máquina, o gasto energético é reduzido em 50%, segundo o ex CEO da DyeCoo, Reinier Mommaal.

Desse processo, não há águas residuais. Uma vez tingido cada lote, restam apenas alguns poucos resíduos que consistem sobretudo em pigmentos coloridos e óleo. Segundo Mommaal, por volta de 95% do dióxido de carbono pode ser reciclado e ser reutilizado nas máquinas. Ao usar menos energia e substâncias químicas, o processo da DyeCoo reduz os custos de produção entre 30 e 50%, afirma a companhia. No momento, o Yeh Groupda Tailândia utiliza as máquinas da DyeCoo para fabricar peças de roupa da Adidas e a taiwanesa Far Eastern New Century utiliza estas máquinas para confeccionar roupas para a Nike.

O ponto negative desse processo é o custo das máquinas de tingir sem água, que podem chegar a custar mais de 4 milhões de dólares cada uma. Os processo da DyeCoo assim como o da AirDye só podem ser usados com poliéster, e não com algodão.

 

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Obstáculos à adoção de novas tecnologias de tingimento 

Para que a indústria da moda deixe de poluir o meio-ambiente, o preço dessas novas tecnologias precisa baixar consideravelmente, caso contrário, só as empresas de grande capital, como a Nike ou a Adidas, poderão realizar esses investimentos. Mas a conscientização do consumidor final também é muito importante. Muitos consumidores já estão mudando a mentalidade e se recusando a comprar roupas de empresas que não se preocupam com a degradação do meio-ambiente. Mas esse grupo de consumidores conscientes ainda é muito pequeno e não é capaz de causar nenhum impacto significativo.

O setor de têxteis e vestuário da China deslanchou nas últimas décadas porque as principais organizações internacionais de confecção fabricam neste país, onde a mão de obra é barata e as fábricas lucram porque não seguem nenhuma regra de tratamento de resíduos tóxicos, muito menos garante os direitos humanos e trabalhistas de seus operários. À medida que o preço da roupa importada vem caindo nas duas últimas décadas, a degradação humana e do meio-ambiente crescem como nunca. Isso aumentou enormemente a poluição dos solos e da água ao redor dos agrupamentos têxteis, segundo vários relatórios do Greenpeace, do Institute of Public & Environmental Affairs (IPE) chinês, e da World Wildlife Funde do Federal Institute of Aquatic Science and Technology suíço.

 

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O problema da exportação

As substâncias químicas do tingimento têxtil também são espalhadas pelo mundo através da importação roupas e tecidos com resíduos. A Friends of the Earth, a World Wildlife Fund e o Greenpeace examinaram uma grande variedade de roupas que provaram conter elementos químicos nocivos, como anilina, ftalatos e etoxilato de nonilfenol (NPE). Foram encontradas muitas substâncias químicas usadas no tingimento, no acabamento e na impermeabilização de casacos de todas as estações, roupas antirrugas e camisetas com estampas plastificadas. Muitas substâncias químicas cujo uso foi proibido na fabricação de roupas na Europa, ainda são usadas na Ásia e quando essas roupas são importadas, contaminam as águas dos países importadores.

A grande maioria destas substâncias é eliminada na primeira lavagem, o que pode evitar uma reação alérgica na pele de quem vai usar a roupa, ou mesmo algo mais grave. Por isso é tão importante lavar as peças de roupa novas antes de vesti-las pela primeira vez. O problema é que quando essas roupas são lavadas, os resíduos químicos são levados pela água e se espalham em nossas hidrovias. Outros resíduos de substâncias químicas podem demorar mais tempo nas fibras dos tecidos.

Segundo o Greenpeace, “muitos químicos perigosos podem também ser transportados em nossos oceanos, atmosfera e cadeia alimentar e acumulados em lugares distantes de suas fontes originais. Eles podem se acumular no organismo de animais, entre eles pássaros, peixes, baleias, ursos polares e até mesmo no leite humano. O problema e a solução são, portanto, não apenas um problema de interesse local. Este é sem dúvida um problema global”.

O governo chinês anunciou um plano de 320 bilhões de dólares para enfrentar o problema da contaminação da água. Foram estabelecidos novos critérios para os derrames das águas residuais da indústria do tingimento de têxteis, incluindo um limite da quantidade de água doce utilizada para produzir cada tonelada de tecido. Mas isso depende de se estas leis serão aplicadas na prática.

Por enquanto esse é um problema que está longe de ser solucionado. A conscientização ainda é a melhor via para nos proteger dos perigos da contaminação das roupas. Antes de comprar, devemos sempre verificar a procedência das peças e se possível, evitar a compra de artigos importados fabricados nos países asiáticos. Preferir os produtos nacionais, além de proteger a nossa saúde e o meio-ambiente, ainda fortalece a nossa indústria!

Lançada em 2011, a campanha Detox do Greenpeace pede o comprometimento de grandes marcas para zerar o despejo de substâncias químicas perigosas nas águas até 2020. Atualmente, a partir da pressão pública dos consumidores, 20 grandes empresas como Nike, Adidas Puma, C&A e Victoria’s Secret se comprometeram a desintoxicar e estão trabalhando por uma cadeia de produção transparente e livre de contaminação.

 

 

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